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O consumismo como doença do nosso tempo

01.12.2021 | 5 minutos de leitura
Saúde
O consumismo como doença do nosso tempo

Observa-se na cultura atual uma fetichização dos bens e produtos de consumo determinada pelos interesses do mercado e fomentada largamente pelas campanhas publicitárias veiculadas pelos meios de comunicação. A grande influência das mídias sobre as pessoas e a cultura atual acaba dificultando e impedindo o discernimento sobre as necessidades essenciais e legítimas do ser humano e os desejos não essenciais, que podem ser inclusive prejudiciais. O consumo é compreendido e determinado mais pelas imagens e signos que representam os produtos do que pela utilidade e necessidade de uso. Assim, passa-se de uma necessidade natural de segurança, conforto e sobrevivência, o que justifica o consumo, ao vício do consumismo, governado por nossos desejos mais do que por nossas necessidades. 
Esse domínio das coisas sobre os indivíduos, que impede uma avaliação mais racional sobre a responsabilidade e finalidade do ato de consumo, acaba por se constituir como a patologia do consumismo. A identidade e a cidadania dos indivíduos são reduzidas à sua capacidade de consumo, a única via segura de realização e de participação neste modelo de sociedade é a inserção nessa lógica. Porém, a adesão a essa proposta em vez de responder às aspirações humanas leva à instauração de um círculo vicioso na vida das pessoas, segundo o qual quanto mais se deseja mais se consume, quanto mais se consome mais se é insatisfeito e mais se deseja, e assim se segue numa corrida sem fim.

Essa lógica instaura na vida pessoal, econômica e na vida dos países uma corrida ao consumo, como se este fosse o único critério para medir a qualidade de vida, o grau de desenvolvimento e de realização das pessoas e dos povos. O que leva a inúmeros conflitos na convivência pessoal, social e entre países, dificultando a busca de projetos comuns, a colaboração recíproca e a justiça. Pois se tende cada vez mais a acumular só para si as próprias riquezas e a reivindicar bens supérfluos como direito, enquanto grandes multidões e inteiros países não dispõem de bens essenciais para viver. Isso inviabiliza também a sustentabilidade ambiental, pois projeta-se que no ritmo atual serão necessários dois planetas para garantir o consumo da humanidade em 2030, o que evidencia que o consumo médio está acima da capacidade de carga do planeta.  

Na base dessa forma errada de relação com os bens, que estrutura o capitalismo, está a realidade antropológico-moral da libido possidendi, que se pode chamar também de cobiça, avareza ou ganância. No Novo Testamento ela aparece como uma idolatria (Cf. Ef 5,5; Cl 3,5), pois é uma tendência imoderada em relação a criaturas que se caracteriza como um culto devido somente a Deus. Essa tendência deve ser moderada, pois uma vida de mero consumo é uma via falsa para dar sentido à existência. E é caminho para a alienação até o seu nível mais elevado, que é a alienação espiritual. Esta leva a um destino de fracasso e morte eterna, pois priva o ser humano da participação na vida divina a qual é chamado.

Para a superação da patologia do consumismo se exige um consumo responsável, entendido como capacidade crítica e reflexiva de contextualizar a produção e o consumo numa perspectiva de modelos de desenvolvimento. Ou seja, tanto o ato de produzir quanto o ato de comprar responsavelmente pode modificar todo o sistema econômico, uma vez que interferem diretamente nas políticas de desenvolvimento e são um impulso para mudanças sociais e ambientais rumo a um planeta mais verde e uma sociedade mais justa. Isso supõe uma mudança de mentalidade e de estilos de vida, e exige que a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros homens, devem determinar tanto as opções de consumo quanto de poupanças e de investimentos em vista do crescimento comum.
O problema não está no consumo em si mesmo, pois os bens são necessários e fruto legítimo do trabalho humano, mas na sua absolutização e na falsa promessa de realização plena que o consumismo faz. Essa supervalorização e excessiva expectativa em relação aos bens fazem do consumo o centro e a prioridade fundamental da vida pessoal e social, consumir se torna o único valor verdadeiro da sociedade, não subordinado a nenhum outro valor ou realidade além de si mesmo. A causa dessa patologia consumista está no fato de que o sistema sociocultural e econômico foi reduzido à produção e consumo de bens e serviços, prescindindo da dimensão ética e religiosa que oferecem um sentido mais amplo para a atividade e a existência humanas.

Sem isso, a pessoa em vez de se servir dos bens se torna serva deles. O sistema sai do seu estado normal e decai para o patológico: o capitalismo se descontrola e torna-se realmente iníquo; o exercício do poder se converte em ditadura ou em totalitarismo; a sexualidade decai para formas perversas; a religião se degrada em superstição, farisaísmo, fanatismo e outras aberrações. Ou seja, a inversão dos sistemas e das coisas em sujeitos e das pessoas em meios ou instrumentos, favorecida por uma visão materialista do desenvolvimento desvinculada do elemento ético-espiritual, sempre causa exploração, alienação e aniquilação do ser humano pelo próprio ser humano. 

Pe. Junior Moreira, MI

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