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Quarto voto: servir os doentes, mesmo com risco de vida

25.06.2018 | 5 minutos de leitura
São Camilo
Quarto voto: servir os doentes, mesmo com risco de vida

Por Pe. Zaqueu


Num mundo onde se manifestam sérias tendências de secularização, também na Vida Religiosa, os consagrados são chamados a dar testemunho da absoluta primazia de Deus e de Seu reino. A Vida Religiosa se converte em testemunha do Deus da vida em uma realidade que relativiza seu valor (obediência), é testemunha de liberdade frente ao mercado e às riquezas que valorizam as pessoas pelo ter (pobreza), e é testemunha de uma entrega no amor radical a Deus e à humanidade frente à erotização e banalização das relações (castidade) (Doc. Aparecida, n.219).


Muitas vezes, os Conselhos Evangélicos são esvaziados no seu sentido evangélico, sendo tratados somente pelo lado jurídico. A vivência dos Conselhos Evangélicos deve ser algo que traz “prazer”, “gozo”, que nos faz ser pessoas realizadas e que deve ser experimentado com liberdade.


Falando da importância da vivência dos conselhos evangélicos, gostaria de falar sobre um "quarto voto", em especial, do nosso Instituto: "Servir os enfermos, mesmo com o risco de vida". O quarto voto não surge de um preceito conceitual ou jurídico, mas do dinamismo da própria vida religiosa e como necessidade de expressar melhor o que constitui sua forma específica de seguimento e de missão. 


O quarto voto está diretamente ligado à finalidade do instituto, ou seja, não é acréscimo numérico, nem desenvolvimento do conteúdo dos três votos básicos. É explicitação do compromisso fundante e originário de determinada forma de seguimento de Jesus. No quarto voto ‘concentra-se como em um só ponto a totalidade da natureza e da vontade de uma ordem, a totalidade de sua ‘obrigação regular, isto é, a meta ou fim especial de uma Ordem.


O quarto voto não é somente uma especialidade da nossa Ordem; é fruto da evolução da vida religiosa na história da Igreja. Nascida simplesmente como seguimento especial de Cristo, para viver como Ele viveu, adotando Seu estilo de vida, expresso em modelos diversos, a Vida Religiosa, ao longo dos séculos, se cristalizou “sobre a base comum da consagração pessoal em castidade, pobreza e obediência (século XII), que, a partir de então, formará o núcleo da consagração religiosa” (I.I. Gonzales).


O quarto voto tem, assim, um sentido muito peculiar para os Ministros dos Enfermos e é parte essencial de sua vocação, porque radicaliza o carisma próprio do Instituto. Trata-se de um carisma que constitui sua razão de ser, que é o eixo sobre o qual a comunidade gira, o ideal que inspira, informa e ordena a vida comum, a oração e a atividade apostólica. Daí que o quarto voto seja aquele que dá sentido e unidade aos outros três votos clássicos. Como eles, e mais que eles, configura os membros da comunidade camiliana com Cristo misericordioso, que passou fazendo o bem e curando todo tipo de enfermidades.


Segundo Pe. Calisto Vendrame, "embora seja a caridade e não o voto, o que santifica, porque é a caridade que nos transforma em Deus e nos limpa de toda mancha de pecado, Camilo e seus companheiros decidiram emitir o quarto voto para confirmar sua decisão e comprometer-se livremente na prática da caridade para toda a vida. Talvez tenha contribuído também esse voto para que aumentasse o escrúpulo da fidelidade ao carisma e, como consequência, a adotar normas claras e precisas para sua aplicação prática”.


A Constituição da nossa Ordem reza o seguinte: “Professamos com o voto público os conselhos evangélicos e, segundo o nosso carisma, emitimos um quarto voto pelo qual nos consagramos ao serviço dos doentes... Ainda que com risco de vida” (c.28). Para os camilianos, o quarto voto vem a ser o primeiro, como é apresentado na fórmula da nossa profissão, que indica a função primária do voto específico: “prometo a Deus servir aos enfermos, até mesmo com o risco à minha própria vida, em perfeita castidade, pobreza e obediência...”.


Pe. Calisto Vendrame ainda relembra outra característica do nosso quarto voto: o radicalismo. Segundo ele, “é um voto para a vida, que implica a decisão de enfrentar concretamente a morte, se for necessário, pelo bem do enfermo. Possibilidade não improvável. Perigo não impossível para quem realmente se compromete na luta contra as causas sociais e políticas das enfermidades e mortes precoces, especialmente no Terceiro Mundo”.


O dever básico do religioso camiliano é a disposição da caridade, em especial da caridade com o próximo que sofre. Isto só será possível mediante um conhecimento exato do valor da dor para o ser humano e para o cristão. São Paulo disse: “Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. Completo na minha carne o que falta à paixão de Cristo” (Col 1,24).


São Camilo teve como grande descoberta a identificação de Cristo nas pessoas que sofrem. Ele fez essa descoberta para si, para nós e para a Igreja, traduzindo-a num dinamismo vital que ultrapassou qualquer expectativa de sua época. Entrava em êxtase diante do doente, reconhecendo-o como seu senhor. O doente tornou-se a sua razão humana e cristã de ser nesta vida.


Com o quarto voto nos consagramos à tarefa de “vigiar” com o doente, com uma vigilância que ultrapassa a assistência puramente material. São Camilo cumpriu este voto nas condições de seu tempo com amor e doação total. Hoje somos convidados a fazer o mesmo, pois as necessidades e os problemas humanos são os mesmos, no que eles têm de essencial, podendo mudar apenas os nomes.

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