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Encíclica Fratelli Tutti por Pe. Júnior Moreira, M.I.

18.11.2020 | 6 minutos de leitura
Papa Francisco
Encíclica Fratelli Tutti por Pe. Júnior Moreira, M.I.

A encíclica Fratelli Tutti sobre a fraternidade e a amizade social, publicada em Assis no dia 03 de outubro, pode ser entendida como a sistematização do pensamento do Papa Francisco, pois recolhe e elabora de forma aprofundada diversas ideias que ele difundiu nestes sete anos do seu pontificado. É, portanto, uma etapa importante e um ponto de chegada do seu magistério, cuja palavra chave é a fraternidade. Não a fraternidade como um conceito típico do iluminismo, concebido apenas como uma exigência da espécie humana ou como algo que nasce dos vínculos de sangue de uma etnia. 

A fraternidade de que fala Francisco tem sua origem no alto, é o reconhecimento da paternidade de Deus que faz todos irmãos e irmãs em um único pai. É uma forma de relação que visa o bem recíproco de todos, sem nada perder de si e sem nada tirar dos outros. Para o cristão isto é muito importante, pois na relação entre Deus e a pessoa humana existe reciprocidade, não troca nem comando, mas sim liberdade. 

A encíclica, nesse sentido, alarga o nosso olhar sobre o mundo à luz da fraternidade: o que está distante de nós, diz-nos respeito. O olhar da fraternidade nunca é míope, mas é evangélico e humano. É muito mais realista do que muitas ideologias ou políticas que a si mesmas se autodefinem como realistas. Apresento a seguir três chaves de leitura ou três abordagens deste importante documento social do magistério do Papa Francisco.

Dimensão antropológica


A temática da Encíclica tem caráter fortemente antropológico, pois propõe uma via de humanização para o ser humano contra as tendências desumanizantes da cultura atual. Apresenta um humanismo aberto que seja capaz de indicar o lugar existencial do cristão na realidade histórica e cósmica. Realiza uma verdadeira mudança antropológica, pois expressa o desejo de que a aspiração à fraternidade possa ser a característica fundamental das relações e dos projetos humanos.

A humanidade que parece caminhar em alguns momentos por uma via de desumanização e alienação das pessoas, marcada por antropologias reducionistas e por um exagerado individualismo, é convidada a posicionar a história e as relações humanas nos trilhos da fraternidade. È tempo de viver o sonho inscrito na natureza humana, de abrir-se aos outros e de caminhar juntos, de construir e de realizar projetos comuns para o bem pessoal e de toda a humanidade. 

Só juntos é que conseguiremos identificar as prioridades e apelos que emergem da realidade, e que são clamores e condições para o reconhecimento da dignidade humana e da sua consolidação histórica. Compartilhando os sonhos e o diálogo não somente como uma estratégia de sobrevivência, mas como espaços fundamentais para a própria existência. O Papa convida a individuar na parábola do Bom samaritano (Lc 10, 25-37) as características antropológicas para um novo humanismo, que se responsabilize pela realidade e se empenhe no seu cuidado.

Os fundamentos deste novo humanismo são a abertura a Deus como origem e fim último do ser humano, criado a imagem e semelhança para uma vida de comunhão e de relação com o Criador e com os seres humanos; a base humanista que deve caracterizar as relações humanas, sensibilidade, proximidade, cuidado, inclusão e acompanhamento, sobretudo, dos mais necessitados; o diálogo como modo de ser do próprio ser humano, ser comunitário e dialogal como identidade e como condição para a sua realização; a solidariedade como virtude e fundamento de uma ética solidária, vivida concretamente como responsabilidade pela fragilidade do ser humano e de suas estruturas sociais. 

Dimensão Política


A Fratelli tutti é uma encíclica social que pode ser lida também como um compêndio social, cujos temas centrais nessa perspectiva são o populismo e a imigração. Sobre esses temas se insiste que a fraternidade universal e a amizade social estão na base das respostas a estas duas problemáticas. O capítulo V que trata do aspecto propriamente político delineia um quadro geral sobre o populismo, demonstrando os abusos que se faz hoje da ideia de povo e a manipulação dos medos e dos problemas da população para obterem vantagens políticas.

 Com isso, se faz uma clara denúncia de certas políticas nacionais e internacionais, dos abusos do trafico humano, da falta de acolhida de alguns países que são ponto de chegada dos imigrantes e da ausência ou pouca colaboração internacional no enfrentamento destas questões. A fraternidade e a amizade social são como a lâmpada que deve iluminar e orientar a ajuda àqueles que sofrem os efeitos destes males, as atitudes que devem estar na base de toda política e de toda ética social. 

Só a abertura e a responsabilidade de todos em assumir essa proposta como um ideal de vida, farão com que ela deixe de ser uma mera utopia e passe a se constituir como uma política realmente revolucionária a nível pessoal, familiar e internacional. 

Dimensão econômica 


Em relação à economia se acentua a estreita conexão e interdependência que marcam as relações, mas por outro lado se evidencia a extrema fragmentação em que de fato vivemos. Se o discurso financeiro propõe a abertura ao mundo a fim de globalizar e universalizar o mercado, essa abertura é condicionada aos interesses dos poucos que detém o poder.  
O papel dos indivíduos é reduzido ao de consumidores e observadores, isso enfraquece sempre mais a participação na vida social e política e reduz as pessoas e os Estados a meros instrumentos a serviço dos poderes econômicos.

Isso cria um individualismo crescente incapaz de gerar o bem comum, pois a soma dos interesses individuais exaltada pelo liberalismo não é capaz de proporcionar o bem de todos. Essa máxima que está na base da ideologia liberal radical não passa de um engano, pois a aparente virtude de contentar-se com o próprio bem empobrece a sociedade e pode levar a tensões e revoluções sociais incontroláveis. Ademais, a forma operativa da economia não garante que as conquistas alcançadas beneficiem a todos, mas é um instrumento de exclusão cujos efeitos são sentidos principalmente pelas camadas sociais mais pobres. 

O altíssimo e inaceitável grau de desigualdade observado hoje na sociedade e as inúmeras e trágicas crises econômicas denunciam a fragilidade e inadequação do atual sistema econômico na resolução dos problemas ligados ao desenvolvimento humano. Na sociedade globalizada em que vivemos não se pode enfrentar os problemas de forma isolada, mas de forma conjunta, envolvendo todos os países, organizações e agentes sociais na promoção do progresso e bem de todos.

Nesse sentido, é urgente uma reforma das instituições e da arquitetura econômica internacional a fim de que se possa pensar soluções e perspectivas de futuro que vão além dos nossos pequenos grupos de interesses e dos nossos viciados esquemas mentais. A abertura é a atitude mais positiva diante do mundo, pois permite o crescimento recíproco das pessoas e dos povos. Superando-se assim um clima de desconfiança e de competição que geralmente leva ao domínio e a exploração do outro, meios inadmissíveis e inadequados para a construção de um projeto comum por todos e para todos.

Pe. Júnior Moreira, M.I.

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