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Quaresma: tempo de muita tentação e profunda conversão | Camilianos

29.03.2021 | 13 minutos de leitura
Igreja
Quaresma: tempo de muita tentação e profunda conversão | Camilianos


Procurando nas Sagradas Escrituras, é possível notar como o demônio age em suas tentações para nos tirar dos caminhos de Deus. No livro de Jó, vemos que as tentações vão se acumulando em sua vida, até que tudo que ele possuía de material lhe foi tirado, bem como sua família e sua saúde, porque ele não renunciava a sua fé, como o demônio almejava. Deus permitiu que assim fosse provando-o em sua fé, até que tudo lhe foi restituído, derrotando as intenções de satanás.

Até mesmo Jesus, Deus Encarnado, não ficou isento das investidas do maligno, como vemos no Evangelho de Marcos 1, 12-15, quando no deserto foi tentado, o que é descrito também em Lucas 4,1-12, e Mateus 4, 1-11. Jesus permaneceu fiel à Sua missão, não se deixando levar por palavras, promessas falsas e tentação de renegar ao Pai, conforme o Evangelho de Lucas, 4, 13: \"Tendo acabado toda tentação, o diabo o deixou até o tempo oportuno”. 

Entretanto, houve um tempo em que o diabo achou totalmente oportuno, que foi a Paixão de Jesus, pormenorizada no Evangelho de João a partir do capítulo 12, sobretudo 18 e 19. Examinemos como o maligno agiu novamente, querendo vingar-se da tentativa frustrada de tentá-lo em toda a Sua vida, querendo tirar dele tudo o que possuía.

Em Sua agonia, no Horto das Oliveiras, os discípulos que Ele escolheu para vigiar foram acometidos de um sono profundo, deixando-O só em um de Seus momentos mais angustiantes. Foi traído por um de Seus discípulos, que vira tudo o que Ele fizera de bom, enviado para anunciar a Boa Nova, curar e expulsar espíritos maus. Pela ação do demônio, Judas arquitetou e efetivou sua traição ao Mestre, por dinheiro, e a fez com um beijo.
Pedro, valente apóstolo, que desembainhou a espada e cortou a orelha de um dos guardas para defendê-lo, logo em seguida O nega por três vezes. Quando Jesus foi levado à presença dos sumos sacerdotes, amarrado, espancado, injustamente acusado e condenado, tudo ocorreu por inveja dos que o acusavam, causada pelo pai da mentira e discórdia.

Levado a Pilatos, o povo insuflado pelo maligno e pelos sumos sacerdotes preferem libertar um bandido ao invés de Jesus. O mesmo povo que, no Domingo de Ramos, O aclamava como Rei, agora gritava que fosse morto como o pior dos marginais com a morte de cruz. 

Ele que entrou em Jerusalém como o Messias esperado, O Filho de Davi, quando todos estendiam seus mantos e com ramos enfeitavam seus caminhos cantando Hosanas, agora era açoitado, desmoralizado, escarnecido e flagelado de todas as formas, física e moralmente. 
Ele que reergueu tantos em sua vida, agora sofre quedas, extenuado pelos flagelos e pelo peso da cruz, a ponto de depois de ajudar a tantas pessoas, precisar da ajuda do Cireneu. Não satisfeito, o maligno ainda, além de fazê-Lo sofrer fisicamente, O fez carregar o fardo de ter sido abandonado pelos seus companheiros, sentindo-se só, e vendo Sua mãe acompanhando Seu trágico destino.

No ápice de sua crueldade, quis o demônio que Suas mãos que sempre se ergueram para abençoar fossem pregadas, para que não mais o fizessem. Determinou aos soldados que pregassem Seus pés, que andaram por toda a terra fazendo o bem, para que não visitassem mais os que precisam.
O diabo deve ter vibrado quando o Cristo foi dolorosamente levantado na cruz, pondo fim à Sua peregrinação na terra, sendo despojado de tudo, inclusive de Suas vestes, tendo por companhia somente um dos discípulos, Sua mãe e outra Maria. Deve ter se sentido eufórico por ver que aquela multidão que Jesus curou, alimentou e mostrou o caminho da salvação ter se dispersado, sendo destruído tudo o que Ele construiu em sua vida, com seus ensinamentos, palavras e obras.

Entretanto, Jesus nunca desistiu de obedecer à vontade do Pai, apesar de toda dor, todo sofrimento e toda a humilhação sofrida. Por isso, Deus O exaltou ressuscitando-O no terceiro dia, pondo fim à comemoração e canto de vitória do reino de satanás, elevando-O ao céu onde reina glorioso para sempre sobre tudo, inclusive sobre o sofrimento e a morte.

Nós também, cada um de um jeito diferente, somos submetidos a tentações no decorrer de nossas vidas, principalmente no tempo da Quaresma, quando queremos jejuar, nos penitenciarmos e abandonarmos nossos pecados e nos voltarmos a Deus. Entretanto, se nos mantivermos fiéis a Ele e a Jesus, pela graça do Espírito Santo, alcançaremos a vitória em nossa vida, e esta Quaresma terá valido a pena em nossa existência.
O Santo Evangelho, principalmente o de João, é bastante pormenorizado na descrição da paixão, e contém muitos personagens envolvidos. A partir disso, podemos tentar nos localizar naquele contexto, ver em qual dos personagens nos encaixamos e procurar melhorar naquilo que nos distancia do caminho da salvação. 

Vejamos a atuação de diversos personagens da Paixão para tentar nos enquadrar nos papéis que executaram naquela época, e como estamos agindo hoje, com relação aos mais necessitados e aos excluídos que nos rodeiam.

1 - Caifás e os sumos sacerdotes - Não aceitavam os ensinamentos de Jesus por medo de perderem seus privilégios e prestígio diante da sociedade. Preferiram eliminar Jesus de suas vidas de forma exemplar para que ninguém mais tivesse a audácia de acusá-los.
Quantas vezes nos afastamos e excluímos de nossas vidas quem nos diz a verdade e nos faz enxergar nossos próprios erros?
2 - Judas Iscariotes - Troca os ensinamentos e a vida com Jesus pelo dinheiro. Tudo em seu benefício próprio, apesar do arrependimento. 
Às vezes, dizemos ser cristãos, aceitamos o Cristo, só que não concordamos com isso ou aquilo que está em Sua doutrina, ou deixamos de cumprir algum de Seus mandamentos porque estamos ocupados com nossos afazeres, nosso descanso, ou mesmo preocupados com o que dizem a nosso respeito.
3 - Pedro, Tiago e João - Acompanham Jesus no horto das oliveiras, mas se deixam vencer pelo cansaço e adormecem, antes de perseverarem e ficarem ao lado de Jesus em Sua agonia.
Será que nunca estivemos com alguém que contava conosco, e na hora de sua maior necessidade o deixamos sozinho, abandonado à própria sorte?
4 - Pedro - O discípulo decidido, fiel ao Mestre, a ponto de enfrentar os soldados dos sumos sacerdotes com a espada, ferindo um deles, depois à medida em que as dificuldades aumentam, O nega por três vezes.
Estamos vivendo um tempo em que dizemos que nós decidimos por Cristo, que seríamos capazes de tudo por Seu Evangelho, entretanto nos omitimos diante das chacotas ou dos ataques que a Santa Igreja sofre, negando assim nossa fé, muitas vezes por respeito humano.
5 - Ainda Pedro - Depois de negar seu Mestre, chora arrependido e mais tarde volta a estar com os outros discípulos.
Temos coisas que fizemos contra a Santa Igreja ou contra nossos irmãos que nos causam arrependimento? Quaresma é tempo de reconciliação e retorno ao bom caminho.
6 - Os dez discípulos - Exceto Judas (que tirou a própria vida) e João que esteve aos pés da cruz, os outros dez se esconderam, por medo de professarem sua fé.
O respeito humano, o medo de nos colocarmos como cristãos, não nos fazem muitas vezes nos escondermos ou nos acovardamos diante dos outros?
7 - Pilatos - Que mesmo não encontrando culpa em Jesus, se acovarda diante dos gritos dos presentes, deixando que um inocente sofra indevidamente. Acredita que lavando suas mãos diante dos que o assistem se livra de culpa.
Mesmo podendo evitar que alguém ou a própria Igreja seja caluniada, difamada, destruída, ficamos à margem dos fatos dizendo que não é problema nosso, e lavamos nossas mãos?
8 - Soldados romanos - Não acreditaram na condição divina de Jesus, flagelando-O física e moralmente de todo modo possível. Não viram Nele um ser enviado por Deus.
Será que nosso sucesso nunca foi feito depois de termos pisado em alguém? Consideramos como seres humanos todos os que encontramos à beira de nosso caminho? Não denegrimos a imagem de ninguém? O açoite de hoje é feito com o chicote de nossa língua. Nunca diminuímos ninguém? Não existe ninguém sem valor algum. Todos temos algo de bom.
9 - Multidão na casa de Pilatos - Dominada pelo poder dos sumos sacerdotes, a multidão presente não pestanejou em mudar de lado. Aplaudiram a entrada de Jesus em Jerusalém, O ouviam no templo, e mudaram repentinamente de opinião desejando e gritando que Ele fosse crucificado, preferindo a liberdade de um malfeitor à do Filho de Deus.
Será que as opiniões de pessoas influentes não nos fazem mudar de lado, em relação à nossa fé e nossas atitudes diante dos que sofrem, abandonando-os à própria sorte? A ajuda não é só financeiramente, é, também, incentivar, aplaudir o que as pessoas têm de bom e rezar por elas, mesmo que aos nossos olhos ainda tenham algum defeito.
10 - Verônica - Não se intimidou diante da brutalidade dos soldados romanos, os enfrentou e enxugou o rosto de Jesus, trazendo a Ele um pouco de conforto em Seu tempo de angústia e sofrimento. Seu rosto ficou estampado naquele pano.
Sempre vemos em nossos irmãos desfavorecidos o rosto de Cristo e não poupamos esforços em amenizar seus sofrimentos e suas dores? Deus mostra que, por menor que seja nosso ato, nada ficará sem a devida recompensa.
11 - Simão Cireneu - Ajuda Jesus, totalmente desfigurado, abatido e maltratado a carregar sua cruz, aliviando o peso do sofrimento em seus ombros, mesmo não sendo um de Seus discípulos.
Já ajudamos alguém a carregar suas cruzes, mesmo sendo eles os mais chagados, famintos, desfigurados e marginalizados, que pedem socorro ao nosso redor? Será que não podemos fazer nada para aliviar-lhes o peso que os oprime?
12 - Soldados que pregam Jesus à cruz - Impedem que caminhe, que anuncie o Reino, que cure, que abençoe, pregando suas mãos e pés.
Com nossos pensamentos, nossas palavras e nossas obras, nunca impedimos ninguém ou deixamos de ajudar quem quisesse fazer o bem, seja a quem for?
13 - Soldados que repartem as vestes de Jesus - Tiram Dele tudo o que Lhe resta neste mundo, deixando-O sem nada, não se importando que Ele estivesse nu.
Nunca fomos tentados a nos aproveitarmos usurpando de quem precisa, como por exemplo, cobrando juros abusivos, furando filas, nos aproveitando de programas sociais, segregando alguém que precisa e conta com nossa ajuda em nosso próprio benefício? 
14 - Os ladrões crucificados com Ele - Um zombava Dele juntamente com os soldados, os sacerdotes e o povo, e o outro pedia que Jesus se lembrasse dele.
Que partido tomamos diante das situações do dia a dia? Como agimos? Nós nos juntamos à maioria ou fazemos valer nossa opinião e nos baseamos em nossa fé para emitirmos nosso parecer? Temos coragem de corrigir alguém que se deixou levar pela maioria? 
15 - Quatro Pessoas aos Pés da Cruz - \"Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria de Cleofás, e Maria Madalena, e perto de Sua mãe o discípulo a quem amava (Jo 19, 25-26).
Somente eles quatro em Sua companhia, compartilhando Seu sofrimento, enquanto para toda multidão isso era um espetáculo, um divertimento...Como nos portamos diante dos sofredores? Visitamos, estamos a seu lado nos momentos de angústia, ou disfarçamos que não temos nada com isso, e até os menosprezamos? 
16 - Maria, o presente de Jesus para a humanidade - Depois de nos ter dado os ensinamentos do caminho que leva a Deus, mostrado que podemos chamar Deus de Pai, nos dado Seu próprio Corpo e Sangue como alimento, ainda na cruz nos deu Sua Mãe por Nossa Mãe, garantindo que Maria nos recebesse como filhos dizendo: \"Mulher eis teu filho\", e ao discípulo que Ele amava: \"Eis tua mãe\" (Jo 19, 26-27).
Que lugar Maria ocupa em nossa vida? Como respondemos a este presente de Jesus? Maria nos ensina desde as bodas de Canãa: \"Fazei tudo que Ele vos disser\". Estamos seguindo tudo o que Ele nos disse?
17 - O centurião romano - \"Após a morte de Jesus, o centurião, vendo o que acontecera, glorificava a Deus dizendo - Realmente este homem era justo\" (Lc, 23, 47).
Quando vamos deixar nossos erros e reconhecermos Jesus como nosso Mestre e Senhor? Deixar a vida fútil e vivermos para o que realmente fomos criados? Se somos cristãos, somos chamados a sermos continuadores da obra de Cristo no mundo, e o mundo precisa tanto de cada um de nós, de nossos trabalhos, de nossas orações e de nosso amor.
18 - José de Arimatéia - \"Depois, José de Arimatéia, que era discípulo de Jesus, mas secretamente por medo dos judeus, pediu a Pilatos que lhe permitisse tirar o corpo de Jesus\" (Jo 19,38).
Não devemos alardear o que fazemos pelo Reino de Deus, apenas fazer o que está ao nosso alcance. Fazemos o que podemos? O impossível restante Ele fará por nós.
19 - Maria Madalena - Depois de seu encontro com Jesus, passou a segui-lo por toda a vida, esteve aos pés da cruz, e juntou-se aos apóstolos depois da morte do Mestre, por sua lealdade e amor, recebeu Dele a recompensa de ser a primeira a vê-Lo depois da ressureição.
\"Ora, tendo ressuscitado na madrugada do primeiro dia da semana, Ele pareceu primeiro a Maria de Magdala, de quem havia expulsado sete demônios\" (Mc 16, 9).
Maria Madalena foi fiel a Jesus em Sua vida, em Sua morte e até depois de Sua morte, permanecendo com os apóstolos, por isso recebeu já em vida o prêmio de ser a primeira a ver o Ressuscitado. Peçamos a Ela, que rogue por nós a fim de recebermos de Deus a graça de sermos firmes em nossa fé até o dia de nossa morte, e que nesse dia possamos nos encontrar face a face com Ele.

Lembremo-nos que uma Quaresma será a última de nossas vidas! Para mais de 300.000 brasileiros, a COVID-19 fez com que a de 2020 tivesse sido a última de suas vidas. Felizes deles se aproveitaram este tempo para se aproximar mais dos caminhos de Jesus, e se O encontraram ressuscitado, assim viverão para sempre com Ele.

Portanto, aproveitemos esta oportunidade que Deus nos está dando, pois Quaresma é tempo de conversão, apesar de tantas tentações que nos são propostas.

Feliz ressurreição a todos!


Autor: Sr. Mauro Mandri, 65 anos, pertencente da Paróquia São João Maria Vianney na Lapa - SP e do Santuário Mãe Rainha em Caieiras - SP. Foi paciente no Hospital São Camilo e, durante sua enfermidade, escreveu este texto que é compartilhado com todos.

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