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A força da fé

11.03.2019 | 5 minutos de leitura
Saúde
A força da fé

Por Júlio Serafin Munaro

 

O evangelista São Marcos conta-nos o seguinte episódio da vida de Cristo:
“Ora, uma mulher que havia doze anos tinha um fluxo de sangue, e que muito sofrera nas mãos de vários médicos,
tendo gastado tudo o que possuía sem nenhum resultado, mas cada vez piorando, tinha ouvido falar de Jesus.


Aproximou-se dele, por detrás, no meio da multidão, e tocou-lhe as vestes. Porque dizia:
‘Se ao menos tocar as suas vestes, ficarei curada’. E logo estancou a hemorragia.


E ela sentiu no corpo que estava curada de sua enfermidade. Imediatamente, Jesus,
tendo consciência da força que de saíra, voltou-se para o povo e disse:
‘Quem as minhas vestes’? Os discípulos disseram-lhe:
‘Estás vendo a multidão que te comprime, e perguntas:
Quem me tocou?’ Jesus olhava em torno de si para ver quem havia feito aquilo.



Então a mulher, amedrontada e trêmula, sabendo o que lhe tinha sucedido, foi e caiu-lhe aos pés e contou-lhe toda verdade.
E Ele disse a ela: ‘Minha filha, a tua fé te curou; vai em paz e fica curada desse teu mal’”.


Esse episódio, acontecido há quase dois mil anos, revela as limitações da ciência, a força da fé e o senhorio absoluto de Deus sobre a natureza. E não foi o único milagre da história. O Novo Testamento conta dezenas deles, até mesmo de ressurreição de mortos. O cristianismo acredita em curas milagrosas, fruto da intervenção direta de Deus, graças à fé de seus filhos e de sua Igreja. Em todos esses casos pode-se repetir: “Meu filho, a tua fé te curou”.

 

Convém lembrar, no entanto, que a saúde, sua preservação e sua restauração constituem um problema que Deus confiou à responsabilidade dos homens, independentemente da fraqueza ou do vigor de sua fé. Os milagres de cura, por mais espetaculares que sejam, são raros e não alteram a realidade humana em seu todo. Limitam-se a poucos indivíduos. Muito poucos, aliás. Um em cada milhão? Talvez seja muito. Mesmos os santuários mais pródigos em curas – como Lurdes – conseguem muito menos que qualquer hospital bem equipado. Um bom médico cura mais que um grande santo. Os antibióticos tiveram efeito terapêutico muito superior à fé de todos os tempos e de todas as pessoas. Com isso não queremos negar os milagres de cura nem de Cristo, nem dos santos, nem dos santuários. Lembramos apenas que a finalidade específica da fé ou da religião não é a cura das doenças. Pode curar, mas excepcionalmente. Um dia, com fé ou sem fé, todos morrem.



Não se deve esquecer que a doença é um fenômeno intimamente ligado à natureza, cujas causas devem ser procuradas nela e resolvidas em seu âmbito. Os cuidados naturais valem mais que qualquer devoção ou ato religioso para preservar a saúde. À medida que melhorarmos as condições de vida e progredirmos nas ciências médicas, tanto maiores serão as probabilidades de prolongar a vida e de livrá-la da doença. A história, sobretudo a história mais recente, demonstra isso com inegável clareza.

 

Seria isso negar o poder de cura da fé? Ou seria pensar que o tempo dos milagres já passou? Nem uma coisa nem outra. A fé mantém intacta, os milagres continuam e as curas acontecem. Os problemas de saúde, porém, devem encontrar sua própria solução em outro plano. Esquecer-se disso significa distorcer a fé e expor-se a morrer antes do tempo e contra a vontade de Deus. A fé esclarecida não cria ilusões.

 

Também não há como atribuir, com excessiva facilidade, toda e qualquer doença ao pecado. Isso seria desvirtuar a fé e ignorar as curas naturais da doença e da morte, presentes no mundo antes mesmo que o homem aparecesse.

 

“A doença, ainda que intimamente ligada à condição do homem pecador, quase nunca poderá ser considerada como um castigo que lhe seja infligido por seus próprios pecados” (Rito da Unção, n. 2).

 

Eis o que diz o evangelho de São João: Ao passar, viu ele um homem, cego de nascença. Seus discípulos indignaram: “Mestre, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego”? Jesus respondeu: “Nem ele nem seus pais, más é para que nele se manifestem as obras de Deus”. (Jo 9, 1-3).

 

A pastoral da saúde, que atua na comunidade em nome da Igreja, não pode gerar confusões em nome da fé. Deve, porém, esclarecer o povo e colocar ideias claras tanto no que se refere às causas da doença quanto no que diz respeito à sua cura. A fé não deixa de ter sua palavra no caso. O pecado também exerce sua influência. Até onde?

 

Amplas camadas da população brasileira estão sendo confundidas por pregadores populares que prometem curas em nome de Jesus e apontam como causa de todas as doenças o pecado. Estariam eles interpretando corretamente o Evangelho e a Bíblia? A realidade seria tão simples?



“A doença não deixa de ser um mal. Deus quer a vida plena, com saúde. Sentimos de maneira sadia, se nos defendemos contra qualquer ameaça à vida. Por isso, os médicos e todos os que estão a serviço dos doentes, para lhes dar conforto e ajuda a restabelecer a saúde, cumprem uma missão cristã. Fazemos bem se na doença procuramos recuperar a saúde e se ajudamos os doentes a descobrir de novo a vontade de superar doença. Com uma aceitação meramente passiva, que se pode esconder sob o manto de devota resignação, não respondemos à providência divina, embora a entrega à vontade de Deus, especialmente em situações extremas, seja a única atitude verdadeiramente cristã” (Manual do Doente, pp. 7-8)

 

Questionamentos


Pode-se ensinar que toda doença depende do pecado?

Que papel desempenha a natureza como causadora de doença?

Que papel desempenha a fé na cura das doenças?

Devemos confiar mais na fé ou na medicina para vencer a doença?

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