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São Camilo e a ascese dos Ministros dos Enfermos

01.07.2021 | 11 minutos de leitura
Saúde
São Camilo e a ascese dos Ministros dos Enfermos

A nossa reflexão tem como base “O espírito de São Camilo”, obra de padre Mário Vanti M.I., seguindo uma tradução em língua portuguesa de 1982. Dentre os muitos temas destacamos o dom e o espírito de oração de Camilo de Lellis. A relevância deste tema aponta para uma necessidade inerente à condição humana, isto é, a oração, que é um dado antropológico: “o desejo de Deus está inscrito no coração dos seres humanos”, nos diz o Catecismo da Igreja Católica, n. 27. O homem é vocacionado à comunhão com Deus, chamado a estreitar seu vínculo de amor com o Senhor por meio da experiência e do relacionamento pessoal, não com uma norma ou doutrina, mas, sobretudo, com uma pessoa, Jesus Cristo (cf. Jo 14, 6).  

O mundo em que vivemos é marcado por uma cultura mediática, uma vida em contínua aceleração (ativismo), uma globalização do ter, do poder e do prazer, é barulhento, consumista e hedonista. Os cristãos enfrentam dificuldades para orar, não encontram tempo para Deus, logo, correm o risco iminente de comportar-se como se Deus não existisse. Por outro lado, observa-se uma sensível e premente necessidade de recolhimento espiritual e de um encontro com o nosso “eu profundo”; assim como o surgimento de uma cultura flexível à vida interior e aberta à dimensão espiritual e transcendente do ser humano. 

Nessa busca do essencial Camilo de Lellis ensinava que a ascese dos Ministros dos enfermos “é a do caminho comum” (VANTI, p. 99). Ele considerava de grande valor o cultivo da mística e espiritualidade, entretanto, imbuído pela mentalidade da época, entendia que a mais bela oração era a ação: “a piedade das obras” (VANTI, p. 98). Isto, porém, não lhe impedia de fazer da oração um estado de vida “uma adesão constante de sua alma a Deus” (VANTI, p. 98). A seguir, destacaremos alguns aspectos e virtudes da vida de oração de Camilo de Lellis.

Disposição para a oração 

No princípio e na base da oração cristã está a fé, que é um dom de Deus, que determina e dá consistência ao diálogo pessoal, íntimo e profundo, entre o homem e Deus. Mas afinal o que é a oração? “Para mim, a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado para o céu, é um grito de gratidão e de amor, tanto no meio da tribulação como no meio da alegria”, dizia Santa Teresa do Menino Jesus. Para São Camilo “a oração é a elevação da mente a Deus” (VANTI, p. 98). Sua disposição para a oração era interior e exterior; interiormente, pensativo, devoto e modesto, costumava rezar no seu quarto e fazia a meditação matinal; exteriormente, mostrava-se bastante exigente consigo e com seus religiosos, era o primeiro a se apresentar na oração comunitária, portava no pescoço um crucifixo e na mão um terço, mesmo em viagem recolhia-se em local silencioso e passava algum tempo em oração. “O seu trabalho com os doentes era uma contínua oração” (VANTI, p. 101).  

.Total confiança na oração

“A humildade é o fundamento da oração. ‘Não sabemos o que havemos de pedir para rezarmos como deve ser’ (Rm 8, 26). A humildade é a disposição necessária para receber gratuitamente o dom da oração: o homem é um mendigo de Deus” (Catecismo, n. 2559). “Camilo pedia sempre a Deus, e com muita confiança, graças e misericórdia para si mesmo, para a sua Ordem e para todos” (VANTI, p. 102). Camilo era um bom cristão, que rezava longas ladainhas, estimulava seus religiosos a rezarem pelos benfeitores, tinha muita confiança na providência divina e rezava pelas vocações.  

A Santa Missa e a piedade eucarística

 “A maior preocupação de Camilo era a santa missa e o breviário” (VANTI, p. 104). Ele tinha o costume de participar da missa diariamente. “Profundamente consciente do valor infinito da missa, queria participar de seus infinitos tesouros” (VANTI, p. 104). Todo esse cuidado era recomendado também aos seus religiosos para que participassem todos os dias da missa, inclusive, nos últimos dias de vida insistia para celebrarem a missa no seu leito. Camilo tinha grande zelo pelos paramentos litúrgicos e observava todas as rubricas.
O centro da piedade de Camilo foi a Eucaristia e o tabernáculo se constituía para ele num centro de atração” (VANTI, p. 107). Essa piedade e cuidado visava a assistência integral dos doentes no hospital. Segundo sua inspiração o tabernáculo (o sacrário), onde se guarda as reservas eucarísticas, devia estar ao alcance dos olhos dos doentes, porque, ele, Camilo, nunca se cansava de reverenciar o Santíssimo Sacramento e dizer que “lá está o verdadeiro médico” (VANTI, p. 107-109). A piedade eucarística de Camilo, após sua conversão, o levava a comungar todos os dias, diferente do costume e regra da época, que era comungar no máximo duas vezes por semana. Assim, ele recomendava a frequente comunhão aos religiosos e também aos enfermos internados. 

O Breviário

Camilo “gostava de rezar o breviário de joelhos, na igreja, diante do Ss. Sacramento ou do crucifixo” (VANTI, p. 106). Ele cultivava muito gosto pela recitação das horas canônicas da Liturgias das horas, fazia tudo com muita tranquilidade e devoção, mesmo estando doente. “Também não admitia que falassem do breviário como de um peso diário que não devia ser antecipado por medo de dar um passo em falso” (VANTI, p. 106).
Ele havia entendido bem que a oração cristã não é simplesmente repetir fórmulas prontas, que tem seu valor, no entanto, bem mais que ressoar tais formulações é criar espaço para que o Espírito, dom primeiro de Deus, suscite uma oração sincera, verdadeira, livre e espontânea, que brota do coração, como resposta humana e acolhimento à palavra de Deus que vem a nós, haja vista, que a real importância não está na palavra, em si, mas em quem nos dá a palavra. 

 Essa experiência de Camilo com a Liturgia das horas nos recorda os modelos de oração presentes na Palavra de Deus, a saber: Abraão (escutou Deus – cf. Gn 12); Moisés (aprendeu a falar com Deus – cf. Ex 33, 11); a parábola do fariseu e publicano (cf. Lc 18, 9-14) e o encontro de Jesus com a samaritana (cf. Jo 4); os apóstolos (cf. At 3).

O crucifixo

O apóstolo São Paulo nos diz: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20a). Depois de sua conversão Camilo de Lellis, viveu um processo de significativas mudanças, inclusive, o desejo de regressar à vida religiosa, no convento dos Capuchinhos. Mas a chaga do pé atrapalhou-o novamente. Foi dispensado com a promessa de ser recebido como noviço, caso se curasse. “Camilo era muito devoto da paixão de Cristo. Sua vida e suas obras de caridade foram inspiradas pelo crucifixo” (VANTI, p. 109). Ele ganhou um crucifixo em 1580, que se tornou um inseparável companheiro.

“As invocações de Camilo ao crucifixo eram contínuas e fervorosas” (VANTI, p. 110). Bem sabia ele, por experiência, que a nossa salvação passou pela cruz de Jesus. A cruz é a expressão máxima do amor incondicional de Jesus de Nazaré, que morreu por amor. A cruz é o centro do amor da redenção humana pela graça de Deus. A mensagem mais poderosa do mundo é a proclamação da cruz de Cristo. É o maior escândalo e a maior loucura para os incrédulos. Mas para nós, os cristãos, é sinal de salvação, ela é força e poder de Deus (cf. 1Cor 1, 18). 

A devoção a Nossa Senhora

Conforme Santo Ambrósio (333-397), a Mãe de Deus é a figura da Igreja, isto é, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo. Isso confere lugar proeminente à Maria na Igreja e na comunhão dos santos, pois, por sua fé e obediência, gerou no seu ventre o Filho de Deus, aceitou sem hesitar, concebendo o Primogênito, Jesus Cristo, o salvador da humanidade inteira (cf. LG 63). “Camilo teve uma filial devoção a Nossa Senhora. Recorria a ela com muita confiança: ‘Em tuas mãos, ó Maria, coloco todos os meus pedidos de graças a Deus e as espero de ti’ [...] ‘Ai de nós pecadores, suspirava, se não tivéssemos essa grande advogada no céu, pois ela é a tesoureira de todas as graças que saem das mãos de Deus’” (VANTI, p. 110-111).  

Camilo recitava o Rosário e nas comunidades camilianas rezavam o Ofício de Nossa Senhora. A mãe de Camilo, Camila de Lellis, recitava todos os dias o Ofício de Nossa Senhora. Isso atesta que a dimensão mariana de Camilo lhe vem desde cedo da sua formação na infância. “Camilo atribuiu a fundação da Ordem dos Ministros dos Enfermos ao crucifixo e a Nossa Senhora” (VANTI, p. 111).  Na festa da Assunção de Nossa Senhora, em 1582, Camilo teve a inspiração de fundar a Ordem. Entre os dias 8, dia da Natividade de Maria Santíssima, e 15 de setembro, dia de Nossa Senhora das Dores, Camilo inicia a fundação da sua companhia. Na Solenidade da Imaculada Conceição de Maria, Camilo e seus companheiros emitem os Votos Solenes, em 8 de dezembro de 1591. E nos últimos momentos de sua vida saudou a Virgem Maria e exortou a seus religiosos “Deixemos tudo nas mãos de Deus e recorramos a Nossa Senhora” (VANTI, p. 113).  

Sob a proteção dos Anjos e os Santos protetores

Já na nossa infância somos ensinados a uma certa predileção pelos anjos quando aprendemos a rezar o “Santo anjo”. No final de setembro celebramos a festa dos Arcanjos, Gabriel, Miguel e Rafael e, logo, no começo de outubro a memória dos Anjos de Guarda. “Camilo invocava com frequência a proteção dos anjos. Teve particular devoção a S. Miguel, tomando-o como especial patrono de sua Ordem [...] Teve grande devoção ao anjo da guarda, invocando-o com frequência e merecendo sua especial proteção em várias oportunidades” (VANTI, p. 113).
Conduzido por essa fiel piedade Camilo honrou também os santos e santas de Deus como modelos, especialmente São Francisco de Assis, São Boaventura, São Carlos Borromeu, São Filipe Néri, Santa Maria Madalena, Santa Catarina de Sena e Santa Cecília. “Em Roma não lhe faltavam oportunidades, nos túmulos dos mártires, nas grandes basílicas e nas numerosas igrejas onde são veneradas imagens e relíquias insignes” (VANTI, p. 115).

A nossa relação com Deus

O Papa Francisco em uma de suas últimas audiências gerais disse que “a oração é o respiro da vida” (Audiência 09/06/2021). Neste sentido, temos que reconhecer que na vida de São Camilo a maior e principal virtude foi a caridade. A própria Bula de canonização Misericordiae Studium de Bento XIV, de 29 de junho de 1746, reconhece em Camilo de Lellis a perfeição cristã e uma vida não somente de obras de caridade, mas uma vida de oração, de santidade. Por isso, podemos conhecer: a altura, a profundidade, a largura e a extensão (o comprimento cf. Ef 3, 18-19).
A ALTURA – “A caridade realmente sublime que, vinda de Deus e voltando para Deus, fazia com que Camilo visse em todas as coisas criadas motivo para amar a Deus ou ocasião para praticar a misericórdia para com o próximo”. 

A PROFUNDIDADE – “De maneira particular, seu espírito de humildade levava-o a ajudar e a assistir sem descanso os doentes que Deus lhe mandava, nos serviços mais humildes e mais pesados. Nunca se orgulhava de ter fundado uma congregação religiosa, agradável a Deus e aos homens, e que tinha governado com sabedoria e difundido em muitos lugares”.
A LARGURA – “Uma só entre todas as obras, que assistiu para si e para os seus como principal e específica, a assistência espiritual e corporal, demonstra amplamente a imensurável largueza do seu amor”.

A EXTENSÃO – “A extensão do seu amor não se limitava à cidade de Roma, mas se estendia a outras regiões às quais levava os benefícios e a utilidade de sua Ordem; percorreu quase toda Itália fazendo o bem e socorrendo toda sorte de necessidades”. 

A condição primeira do orante é reconhecer-se criatura, o homem é essencialmente criatura e tal permanece para sempre. Isso não desmerece sua pessoa, mas, fundamentalmente, cria o lugar de oração, pois, o arquétipo da oração é o Filho de Deus, no qual e pelo qual fomos criados (cf. Cl 1, 16). Jesus aprendeu a rezar segundo a oração ensinada e aprendida na casa de Nazaré. A relação filial com Deus, necessariamente nos move ao próximo, porque, na base do agir cristão está a experiência do amor de Deus que é sempre generoso e transbordante.

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