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Sofrimento e salvação: as faces da dor humana

22.05.2018 | 4 minutos de leitura
Igreja
Sofrimento e salvação: as faces da dor humana

Para desenvolver esta breve reflexão sobre o sofrimento e a salvação, recorro a um dito popular em que se afirma ser a pessoa humana movida e, até mesmo, convertida pelas forças do amor ou da dor. A existência humana se desenvolve e se estrutura quando impactada pelas experiências do amor ou da dor; sendo que, em ambos os casos, a consequência costuma ser a de uma abertura maior ao processo da humanização.


A experiência do amor resulta numa existência humanizada e humanizadora, que abrange também a experiência da dor existencial que, ao ser ressignificada, se impõe como experiência eficaz humanizadora, implicando sempre um apelo à alteridade, já que “O essencial no caminho da cura do mal sofrido é poder partilhar com alguém o próprio sofrimento. Narrar o próprio sofrimento a quem sabe escutar com amor e participação significa se libertar daquela penosa sensação de absoluta solidão que quem sofreu o mal nutre em si: ele, de fato, vê que o peso do próprio sofrimento é partilhado por um outro” (MANICARDI, 10). O sofrimento é uma experiência universal imposta a todo ser humano que vem a este mundo. Sofrer é humano, mas sofrer no abandono, na solidão, significa sempre uma experiência desumana e desesperadora. No entanto, quando o sofredor encontra refúgio na solidariedade divina e amparo na solidariedade humana, seu sofrimento se transforma em caminho de humanização, de esperança, de integração e de salvação.


Quando nos propomos a olhar para o sofrimento humano na perspectiva da salvação, significa dizer que estamos optando por um caminho de esperança que nos é apresentado pela fé em um Deus que, todos os dias, nos desperta para a vida, do jeito que ela é: potencializada pelo amor e fragilizada pela dor, mas sempre sustentada e amparada na solidariedade divina e humana, como narra a parábola do bom samaritano (Lc 10, 25-37). Na solidariedade, todo e qualquer sofrimento pode ser suportado, ressignificado e superado. Na indiferença, o sofrimento torna-se uma experiência avassaladora de morte.


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Essa é a situação do ser humano situado no contexto terapêutico da fé, que se manifesta em atitudes de cuidado e de cura de um Deus humanado que sempre nos fortalece, pois “na fé, de fato, Cristo nos carrega, e, na fé, os fiéis podem escutar as palavras de Cristo, que diz: ‘Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos... porque sou manso e humilde de coração. (...) Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”’ (Mt 11, 28-30) (MANICARDI, 10). Na suavidade e na leveza do Deus revelado em Jesus Cristo, o homem e a mulher de fé encontram acolhida, cuidado, saúde e salvação, enquanto experiência integradora de suas vidas.


Frente a realidade do sofrimento que se impõe ao desafio da existência humana, cabe aos homens e às mulheres de boa vontade buscar fortalecer, cada vez mais, os laços de solidariedade, enquanto possibilidade de ressignificação da própria experiência do sofrimento. No livro O Humano sofrer, Manicardi acentua a necessidade de evangelizar as palavras sobre o sofrimento, o que, de fato, é uma verdade, pois nos permite ousar um pouco mais, no sentido de acrescentar a necessidade de se humanizar e evangelizar ainda mais, não somente as palavras, mas, principalmente, nossa presença enquanto bons samaritanos perante o sofrimento humano, que resultará numa presença salvadora, enquanto promotora de sa

úde e geradora de uma esperança que contribui para o processo de integração humana.

O sofrimento fará parte da existência humana quer no amor quer na dor, já que se trata de uma experiência universal. Nenhum ser humano escapa da experiência do sofrimento. Assim sendo, acolher, superar ou ressignificar o sofrimento são sempre horizontes de possibilidades para uma compreensão da vida na sua dimensão de imanência e de transcendência. Uma existência fragilizada e limitada no tempo e no espaço, poderá sempre vislumbrar aquela realidade de novos céus e nova terra, onde não haverá mais nem sofrimento, nem dor e onde toda lágrima será enxugada (Cf. Ap 21, 4). Portanto, não é o sofrimento que dirá a última palavra sobre o ser humano.


Pe. Gildésio da Paixão Batista

Fonte - MANICARDI, Luciano. O Humano sofrer: evangelizar as palavras sobre o sofrimento. Brasília, Edições CNBB, 2017.

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